Antes que você feche a porta e o se vire nunca

E se eu deixasse a mudança acontecer? Eu me pergunto. Como se ela me pedisse permissão. Como se a transformação fosse sempre premeditada, uma decisão. Mas, ela não pediu licença. Quando estava aqui, eu evitando envolvimento, perguntando “se(s)”, percebi, que enquanto me perco nas interrogações inseguras, na preguiça do novo pelo medo do novamente, enquanto eu me perco nessas indecisões imaturas, pode ser que quando finalmente eu respirar fundo e tomar coragem para ir de encontro, não exista mais. Pode ser que já.

Que enquanto eu me pergunto: e se eu me aproximo, você se encolhe, se afasta, se esconde? Eu escondendo o olhar das decepções projetadas, eu mesma, decepcionando, afastando, encolhendo os encontros na sombra do se. Enquanto eu penso, que se cedo as amarras para dar movimento às emoções, danço, em que sentido? Você então irá reforçar as suas e seguir rígido em outra direção? Eu então, danço só, por trás de paredes imensas, recuso a mão que me estende. E se eu toco, você me aperta, me sufoca? Então, por minha própria angústia, não consigo respirar. Resfólego como quem corre sem rumo, sem parar.

Das palavras que escuto com sorriso e silêncio, finjo às vezes não escutar, debato-me com a razão, sei lá se mesmo tão sã, dizendo que se assumo, que se me entrego, o que será? Se percebe conquistado esse mistério que te move, terá ele-eu outro destino que não uma prateleira de troféus? Respiro fundo, faço graça e finjo que não quero ser levada a sério. Se eu deixo as armaduras, as armas, os medos, você ataca? Você se defende? Você vem de encontro ou parte por já não ter a emoção do desafio?

Enquanto eu respiro a brisa tranquila da minha solidão, você me traz ventanias de palavras. Seria apenas o gosto de me abalar ou traz com elas as sementes das flores que canta em poesia? Então por que se distancia, dá um passo atrás se dou um passo à frente? Do que desconfia, se na minha sinceridade áspera eu apenas omito o que você parece querer ouvir? É que desde que me cansei de provar de palavras frívolas, eu coloquei os gestos no altar, idolatro as atitudes, cultuo atos. Somos assim tão discretos ou não passa de um ensaio? Sem saber eu sigo de soslaio, com a minha natureza de improviso.

Já sem poder ignorar o que me move, nem domar meus movimentos, eu sinto cada se como uma agulha tatuando advertências. Eu invento para mim a desculpa de não querer magoar, enquanto minhas perguntas denunciam o medo de me ferir. Mas somos ambos feitos de carne. Eu percebo que a mudança não pede licença enquanto te vejo fazer as malas. Antes, eu te chamei como quem estivesse de passagem. Agora eu queria te pedir para ficar, mas eu não sei se. O saco cheio de se: me esvazio na esperança de que não tenham se tornado nunca. Arrisco em silêncio, com a mina natureza de improviso. Perdi as palavras em trilha no caminho para você me encontrar.

Carta para um estranho

Eu te vi dia desses, distante, fingindo concentração nos papéis enquanto se perdia na extensão da mesa. Parecia pedir licença, como se soubesse ser observado. Eu cedi. Desviei o olhar com a sua presença colada na minha perplexidade. Permaneci. E por vezes me desviava discretamente para o seu mundo. Desconhecido, isolado. Eu te assistia rodeado de bajulações. A vaidade e o orgulho saltando pelas pupilas presas à uma moldura desgastada, sombria, profunda, disfarçada com um verniz fino feito de sorrisos forçados. Seus gestos exageros e palavras treinadas como os de um ator de teatro. As frases prontas. O discurso lacônico. O que tinha que ser feito.

Por trás dos seus olhos eu imaginava declarações de amor queimadas. Cinzas. Sonhos rasgados. Contas em dia. Um álbum de retratos em linha do tempo para comprovar a maturidade adquirida. Um baú de segredos bem guardados, adornado em ouro e coberto de pó. Uma resistência intensa em viver apesar dos trejeitos de maquete. Uma resistência intensa de viver para manter a forma. Uma paixão pelo caos contida pelo medo da autodestruição. Inseguranças monstruosas que povoavam seus pesadelos pacíficos. Um tanto de homem escondido no bolso interno do terno. Eu não sabia quem era você, mas os que te abraçavam, te beijavam e compartilhavam mais dos seus dias, também não sabiam. Não sabem.

Eu te vi outro dia, exibindo o brilho falso de uma vitória fácil. Frágil por trás do olhar apaixonado esculpido em pedra sabão. Eu não sabia bem se você percebia o quando se perdia nas palavras, que se esvaziavam, minavam, minguavam quanto mais os sons saiam dos seus lábios. Vendo-o inteiro me contive tentando compreender a contradição. Com todos os dons que tem, por que age tão fraco, vestindo-se de armaduras tão pesadas que lhe privam o movimento? Nunca soube bem se é a ilusão do ápice ou o medo de alcançá-lo que impede tantos de ir além. Se assemelhava à uma figura saída de um baile nobre do século passado perdido entre as paisagens urbanas e suburbanas. Mas, outra vez antes eu te vi de calça jeans e óculos escuros e você também não parecia daqui. Não parecia de lugar nenhum. E esse estranho eu amava.

Sem nunca ter perdido a certeza da minha própria naturalidade, com provas se fizesse questão, eu pairei sem graça ante a ironia de te ver tão falso. Parece que se pintou de ouro, todas suas cores indiferenciadas então, uma escultura em movimento. Lento. Perdeu muito dos seus traços, alisados pelo material polido. Foi vencido pelos estereótipos quando podia ter vencido apesar deles. Um mal de muitos. Mais valia a carne em toda a sua decomposição, calor e tempo formando sulcos no rosto – linhas tímidas que se revelavam no sorriso torto. Era proposital, mas verdadeiro como não é o sereno e comedido esticar de lábios atual. Eu assisto à peça sem esperar pelo final, quando o ator deixa o personagem. Seriam agora um só? Casca de improviso ou fusão irreversível? Te entrego as interrogações para viver minha vida de reticencias. Foram-se as resistências. Algumas vitórias são amargas.

Deixei as armas no arsenal das ilusões para te assistir de longe. Aos poucos vou substituindo as esperanças do por vir pela lembrança do que foi. Eu vi. Quando sua luz era inteira você e não um artefato. Eu vi como quem está perto demais não pode ver. Tantos pensam que se conhecem pela proximidade, mas é apenas de uma certa distância que podemos ver mesmo – quando o observado não pode se esconder por trás das expectativas que acredita precisar corresponder. Eu vi, porque eu não era importante, então, você podia apenas ser. E era tão bem. Era. E talvez volte a ser algum dia, quando a maturidade realmente chegar e você não precisar mais encená-la. Quando finalmente perceber tudo de precioso que tinha e tudo de precioso que tem, tão lá dentro guardado, se não for antes molestado pela amnésia da amargura. Quando você se permitir parecer o que quiser, porque sabendo quem é, não tem medo que te julguem. Quando tiver noção de que a sua força não está no olhar dos outros, mas na sua capacidade de fazer.

Até lá eu te olho de longe, endosso a tristeza com distrações fúteis para que ela não me leve tão distante que eu não possa mais voltar, nem ver. Te observo como quando passo por um estranho na rua; e se ao meu lado, como um passageiro, mantenho o olhar perdido no vazio; enquanto fala eu escuto um palestrante, assisto uma peça, com sorte, escuto um canto, respondo como a um RH. Me canso e escolho sempre que posso o silêncio, uma presença quase imperceptível. Me perco em entender o que me mantém por perto – talvez um resquício vivo ainda emita alguma vibração, algum poder invisível de atração. Luto? Fico como quem fixa o olhar no céu escuro esperando pela luz da lua quando é lua nova. Fase? Às vezes eu vejo estranhos na rua eu te imagino como se fosse o que é qualquer um outro, naquele lugar, naquele uniforme, fazendo aquela atividade, com aquele carro ou aquela roupa outra. Chego a rir de te transfigurar para as situações mais absurdas e me dar conta de que ainda seria o mesmo. Mas você não sabe disso.