Carta de desabafo de uma lunática para um “colonizador”

Salvador, Bahia, 15 de outubro de 1997

Relendo algumas coisas que escrevi há cerca de um ano atrás, ou um pouco mais, me sinto não menos que estúpida. Estúpida porque percebo que não consigo mais escrever daquela forma. Ainda mais estúpida por desejar compartilhar com você todo este universo que se tornou, para mim, inacessível. Desde que me “descobriu” eu não tenho sido mais a mesma. Não entendo onde cometi algum erro suficientemente grotesco naquela época que te revelasse o que estava se passando. Procurei te odiar pela forma em que tratou tudo isso e acabei te amando ainda mais. Rio de mim, quase alto, como internamente sei que outros riram, e outros riem, por eu sentir algo assim por alguém com quem nunca tive “nada”. Não há espaço neste mundo para estes amores “platônicos”, mas ao contrário do que parece, também não há para eles espaço em mim. Eu não quero olhar de longe, sentir os disparos do meu coração e contar para as paredes do meu quarto. Quero o toque, quero a troca, quero o mais doce ou o mais vil, não importa, desde que seja.

Já faz um bom tempo que eu não sou uma adolescente contida pelos grilhões paternos. Eu quero viver! Venho tentando viver desde então. Mas, com aquele ato de descoberta, que você tratou como um colonizador, sinto-me enfraquecida de todo o gosto, como se ele você tivesse extraído de mim e me deixado empobrecida de prazeres possíveis. Tudo parece meio sem sal, sem vida, sem perspectiva. Dou chances para o acaso e ele me traz flores colhidas de ontem – logo murcham, logo secam. Desde sempre estiveram mortas, enquanto você permanece plantado, enraizado, como uma persistente erva daninha, que mesmo arrancada, esconde resquícios de suas raízes para depois renascer. Parece realmente muito injusto, que além de não obter nenhuma satisfação com estes afetos condenados à contenção, ainda tenha perdido minha tara de viver. Nunca antes o tédio foi sério, o desejo de descoberta escasso e o desejo de fugir tão grande quanto impossível. Algo me impede de abandonar. O medo de, simplesmente, perder a possibilidade – ainda que seja apenas uma possibilidade, ainda que seja pouquíssimo provável. Ando me diagnosticando de uma loucura latente, à espreita de um surto ou uma surpresa. Ou eu ando mesmo intuitiva demais ou enlouqueci de vez.

Pode parecer pouco para os seus anos de caminhada, mas depois de tantas contradições: descobri-me, tive coragem, fui atrás dos meus desígnios, e tudo isso me levou até você. Evitei ao máximo me entregar e consegui me afastar várias vezes, até que suas palavras tornassem as coisas tão concretas que eu poderia tocá-las. Quis transferi-las, quis quebra-las, quis rompê-las; não porque não merecessem continuidade, não porque não merecessem viver e florescer, mas porque desconfiava, com uma quase certeza, do soldado resistente em prol moral envernizada que existia em você. O soldado resistente que me recusaria até o fim, feita que sou de matéria bruta – dizem que os homens têm medo de mim. Eu devo ser realmente temerosa com todos esses afetos a fio – apenas para “onde” quero, para quem ou o que quero, meio egoísta talvez, excêntrica e explosiva quando o estoque de calmaria cessa. Essas palavras agudas, agressivamente polidas que atingem as dores mais profundas. Eu sei muito bem dos meus defeitos, mas sei melhor ainda de que eles não são isso tudo que as pessoas pensam que são.

Hoje, tudo o que eu queria era uma solução e sei que você lavaria as mãos, me mandaria ir embora da vida. Sim, da vida, não da sua vida. Porque não compreende meus dilemas, e nem deveria. É tão solitário em suas conclusões, penso eu, mais por receio que por narcisismo. E ando às beiras com essa mania de te abrandar os vícios. Esse cara que eu “nem conheço”. Mas quando te olho nos olhos sinto como se há séculos te conhecesse e pudesse desvendar os sentimentos mais profundos. Tenho medo de revelar-me agora como fiz anteriormente, tenho medo da sua ira épica, capaz de transformar em lava a minha terra fértil. Fico nessa, de simplesmente não saber o que fazer. Perco se fico. Perco se parto. Sinto que me perdi de mim.

Sei que você diria, com palavras forçadamente generosas e equilibradas, coisas que deixassem a entender que você não gostaria de me prejudicar. Essa é a minha realidade. Não sou capaz o suficiente para tomar uma decisão sobre a minha vida? O meu delírio é achar que essas palavras são forçadamente generosas e que, na verdade, você gostaria de se posicionar, mas não pode. Não se permite. Não me permite. Eu fico então na corda bamba, entre um abismo e outro, esperando que a sua loucura renasça das cinzas. Para que possamos delirar juntos. Porque toda loucura compartilhada é capaz de superar uma realidade solitária. E, disso não tenho a menor dúvida – não há nenhuma lucidez que valha mais a pena do que a loucura de amar.

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Carta de Scarlett ao seu editor, que após descobrir, “misteriosamente”, que ela era apaixonada por ele, flertou com ela por algumas semanas, como se a correspondesse, e depois casou-se com sua antiga namorada, que ao contrário da escritora, era uma mulher estabelecida e equilibrada. Decidida, no entanto, em sua “missão”, Scarlett continua a escrever e se esforça em manter o vínculo profissional arduamente conquistado. Mas, neste momento, passa por uma crise produtiva que a afasta seu editor, mesmo profissionalmente. Em um contexto em que tem sua possibilidade de correspondência romântica podada e também incapaz de realizar-se profissionalmente, ela busca soluções para tentar se reencontrar e, após uma noite/madrugada/dia de bebedeira, acaba por lhe enviar estes escritos.

De pássaro para pássaro

No meu pensamento você pode voar, asas zunindo como os ruídos de sua mente, levam-no longe pouso breve decidido. Encantado pela amplitude do céu eterno – incansável no tempo, infinito no espaço, pássaro amplo de voo azul. Sem os limites das grades você pode ir a todos os lugares, mas vai apenas aonde quer. É meio como se parece, mas não é.

Com o mundo à disposição, sem medo faz escolhas certas, e se erra nem por isso abranda o voo, voa mais para tornar-se mais certeiro. Pede desculpas com flores do campo em ramos emaranhados de modéstia. Não precisa do orgulho que engoma suas camisas, é nu de maldade e vestido de penas para o vento.

Voa antes só do que meio acompanhado, liberto do passado e dos prejuízos que este projeta no futuro. Bebe da lucidez desembaraçada do amor para manter-se prumo em movimento, assim não canta injúrias nem lamentos, sopra sonoridades curvas que ecoam na caixa acústica do universo. Se no ritmo parceiro surpreende o encontro, não hesita, e livre do medo confia que mesmo diferente o canto, diferentes as penas, diferentes as formas, é o ritmo que dita a harmonia do permanecer.

Nos meus sonhos você pode ser. E poder ser é como poder voar. Você fala com honestidade desinibida de agressividade ou defesas supérfluas. Tem leveza nos toques e economia nas análises limitadas do que não pode ver. É tão fluído e envolvente que invoca sinceridade irrepreensível, sabido de que sem máscaras conquistou o poder de dissolver todas as outras.

Trocou os papéis sociais pelos papéis de carta e escreve apaixonadamente como quem desconhece o ridículo, ri da própria timidez e despede-se dela com beijos de cócegas. Descobriu que a gargalhada inocente e o sorriso isento de sarcasmo são antídotos para a vergonha. Que a vida é curta demais para ter vergonha de existir.

Aprecia o ouro apenas de longe, sabe que o peso da fortuna o faria cair e a vida é cheia de abismos. Prefere adornar-se de tempo e de espaço. Faz suas próprias regras e não acredita quando dizem que sem tais bens você não é ninguém. Sou pássaro. Sabe em silêncio. Toca instrumentos de sopro com o bico. Sou mágico. Canta. Sou rico. Ri.

Na minha vida há um espaço imenso. Você na gaiola estático simula bateres de asas, cansado grita rouco: “sou livre”. Cada vez que te vejo do alto da montanha, sinto-me eu mesma cercada de ilusão. Tiro de luto uns dias – perco o gosto de voar. Às vezes, quando te vejo penso que a minha gaiola é o mundo.